Iago Falk
Advogado e historiador, assina a coluna Casa Literária, dedicada à apresentação de escritores consagrados e de suas obras mais relevantes, aproximando o leitor do universo literário.
Ressurreição
Publicado em 1872, Ressurreição é o primeiro romance de Machado de Assis e já apresenta temas que ele desenvolveria de forma mais profunda em obras posteriores:
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- 17/12/2025 23:16 - Atualizado 17/12/2025 23:20

Quando recebi o convite para escrever uma coluna para a Casa Texto, cujo mote principal seria a literatura, fiquei imaginando qual seria minha primeira publicação. Tateei alguns papéis com escritos que já possuía, folheei alguns exemplares da minha pequena biblioteca, contudo nada me vinha à imaginação: qual livro, qual tema, qual autor?
Num dia despretensioso, olhei para Machado. O grande escritor da nossa literatura. Confesso que, em uma visão muito particular, considero-o o melhor escritor brasileiro de todos os tempos.
Já com o norte apontado para Machado, precisava agora decidir sobre qual obra escrever, missão igualmente difícil, pois todos os seus romances, contos e novelas são de tamanha importância que apontar um como preferido pode ser até injusto.
Todavia, para fazer justiça, escolhi a presente obra, Ressurreição, que, além de ter sido o primeiro romance dele e meu — dele, por tê-lo escrito, e meu, por ter sido meu primeiro contato com o autor — é, para mim, a melhor estreia entre todos os romances que já li. Após escolher a obra e me inteirar mais sobre a vida de Machado de Assis, segue o resultado da minha primeira publicação, sobre o primeiro romance do autor.
Sobre a vida do autor
Joaquim Maria Machado de Assis, nascido na capital do Brasil de sua época, em 21 de junho de 1839, foi um brilhante escritor. Ainda menino, viveu em um país escravocrata, sendo ele negro, atravessando todas as dificuldades sociais de seu tempo. Por meio de seu talento e esforço, conseguiu mostrar suas habilidades literárias.
O talento era tão grande que Joaquim Maria, nascido no Morro do Livramento e que, ao descer o morro, via homens sendo vendidos no cais do Valongo, tornou-se um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Machado, que aprendeu a língua nativa com um padre e francês com um padeiro, deixou um legado imenso, digno de respeito e valorização eternos. Machado sangrou com as penas nas mãos, triunfando sobre as circunstâncias.
Ressurreição
Publicado em 1872, Ressurreição é o primeiro romance de Machado de Assis e já apresenta temas que ele desenvolveria de forma mais profunda em obras posteriores: a dúvida, o ciúme, a instabilidade emocional e as contradições das personagens.
Embora pertença à fase inicial do autor, o livro revela o seu interesse pela psicologia dos indivíduos e pelos conflitos internos que movem seus destinos. Enredo do livro Félix, médico de muitas posses — herdadas sem grande esforço — e de temperamento reservado e desconfiado, conhece Lívia, uma jovem viúva cuja serenidade logo chama sua atenção.
Nasce entre os dois um afeto sincero, e essa convivência desperta em Félix a expectativa, embora conflitante, de reorganizar sua vida emocional, até então marcada por receios, indecisões e relações vazias, sempre com prazo de validade estipulado de antemão: seis meses.
Com o passar do tempo, porém, a relação começa a sofrer com as inquietações de Félix. Ele se deixa levar por comentários alheios e por suspeitas que cria sozinho, interpretando gestos e situações de maneira exagerada.
O ciúme ocupa espaço demais, e a convivência, antes leve, torna-se pesada para Lívia. Diante desse turbilhão íntimo, Félix decide romper o relacionamento. Lívia, embora magoada, segue seu caminho com firmeza, enquanto ele permanece só, percebendo que sua própria insegurança o impediu de viver plenamente o amor que tinha nas mãos.
O romance revela como o medo pode destruir aquilo que nasce para dar sentido à vida. Cabe, para ilustrar, citar um trecho da obra: “Dispondo de todos os meios que o podiam fazer venturoso, segundo a sociedade, Félix é essencialmente infeliz.

A natureza o pôs nessa classe de homens pusilânimes e visionários, a quem cabe a reflexão do poeta: ‘perdem pelo receio de o buscar’.” Todos esses acontecimentos fazem da obra um espetáculo, mantendo um ritmo envolvente que não permite largá-la. A meu ver, Machado utiliza esse enredo para contar uma história aparentemente simples, mas atravessada por questões profundamente humanas, como o ciúme, o egocentrismo e as fragilidades emocionais.
Uns leem com um tom trivial, atento apenas ao enredo; outros conseguem ir mais fundo, nas discussões intrínsecas ao ser humano.
Considerações
Ressurreição merece ser lembrada ao se tocar no cânone das obras clássicas brasileiras. Como especulado acima, Machado de Assis usa um enredo envolvente para tratar de temas profundos, permitindo que diferentes leitores retirem ensinamentos distintos do texto.
Tudo isso está imbricado em uma polifonia que transforma uma história simples em algo magistral. Esse tom aparece também em outras obras de Machado, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Quincas Borba, entre outras.
Espero que o resumo da obra tenha instigado o leitor desta coluna a contemplar esse “maná” de Machado de Assis. Se gostaram, aguardem: por aqui, Joaquim Maria sempre será lembrado.
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