Iago Falk

Iago Falk

Advogado e historiador, assina a coluna Casa Literária, dedicada à apresentação de escritores consagrados e de suas obras mais relevantes, aproximando o leitor do universo literário.

Hamlet, ser ou não ser

Neste texto, analisamos Hamlet e dilemas morais a partir da tragédia de William Shakespeare, destacando a complexidade dos personagens, os conflitos entre justiça e vingança e as profundas reflexões éticas que tornam a obra atual e indispensável.

Hamlet e dilemas morais

Caro leitor, a obra escolhida para a presente publicação é uma peça de teatro que ocupa lugar de destaque no cânone das obras literárias clássicas mundiais. Estamos falando de Hamlet, de William Shakespeare. Arrisco-me a dizer, sem recorrer a hipérboles, que Hamlet é a peça mais conhecida de Shakespeare e, ao mesmo tempo, uma das mais difundidas mundialmente. Todavia, preciso ressaltar que, após um mergulho nas obras do autor, sobretudo em suas belíssimas e trágicas tragédias, tenho uma preferência afetiva por Macbeth, uma vez que seu enredo me impele a refletir moralmente sobre as coisas do mundo, obra que muito provavelmente será vista por aqui. Contudo, feita tal ressalva, devo declarar que admiro e me deleito com Hamlet, especialmente por seus personagens, pois estamos diante de uma das obras-primas do autor.

SOBRE O AUTOR

William Shakespeare nasceu em 1564, em Stratford-upon-Avon, na Inglaterra, e é um dos nomes centrais da literatura ocidental. Dramaturgo e poeta, construiu uma obra que atravessou séculos e permanece atual, seja pela força estética, seja pela profundidade com que aborda a condição humana. Suas peças seguem sendo lidas, estudadas e encenadas em todo o mundo.

O que mais me chama a atenção em Shakespeare é a complexidade de seus personagens e dos dilemas que eles enfrentam. Suas obras dialogam com temas como poder, justiça, culpa e responsabilidade, o que aproxima sua literatura de reflexões morais profundas.

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HAMLET

Escrita por volta de 1600 e publicada pela primeira vez em 1603, a origem da inspiração da peça é incerta. No entanto, existem aspectos de seu enredo que podem ser encontrados em uma crônica intitulada Amleth, de Saxo Grammaticus.

A peça se passa na Dinamarca e mergulha em temas como vingança, corrupção e dilemas morais, consolidando-se como uma das obras mais importantes da literatura mundial.

Numa visão particular, sobretudo como advogado, o que torna Hamlet ainda mais cativante é a forma como aborda questões jurídicas. A trama nos conduz a refletir sobre a legitimidade da vingança e o dilema entre fazer justiça com as próprias mãos. Encontro nesses conflitos uma conexão profunda com a prática jurídica, pois a peça questiona até que ponto é possível buscar por justiça.

Além de Hamlet, outras obras de Shakespeare, como Macbeth e Otelo, também exploram essas questões, criando um diálogo instigante entre a literatura e o direito.

Hamlet e dilemas morais

ENREDO

Na peça, o autor constrói uma tragédia centrada no colapso moral de uma corte que aparenta estabilidade, mas apodrece por dentro. Após a morte do rei da Dinamarca, o trono é ocupado por Cláudio, seu irmão, que rapidamente se casa com Gertrudes, viúva do rei morto. Hamlet, filho do rei falecido, retorna à corte tomado por luto e estranhamento, incapaz de aceitar a naturalidade com que a morte do pai foi substituída pelo casamento de sua mãe com Cláudio e pelas alianças políticas firmadas.

A aparição do Espectro do antigo rei revela que houve um assassinato, e que o crime partiu do novo soberano. A partir daí, instaura-se um conflito que não é apenas externo, mas profundamente interior, pois Hamlet passa a oscilar entre a obrigação de vingar o pai e a repulsa diante da violência que essa vingança exige.

O drama avança à medida que Hamlet transforma a dúvida em método, fingindo loucura para observar, testar e expor a culpa de Cláudio. Nesse percurso, arrasta consigo aqueles que o cercam: Ofélia sucumbe à pressão e à perda; Polônio morre, talvez vítima de suas atitudes comezinhas e mexeriqueiras; e Laertes retorna inflamado pelo desejo de vingança. A sucessão de mortes não decorre de um único ato, mas de uma cadeia de decisões adiadas, silêncios cúmplices e impulsos tardios. No desfecho, a verdade vem à tona quando já não há mais como salvá-la, e o palco se enche de corpos, como se Shakespeare insistisse que, quando a justiça se confunde com vingança, o resultado inevitável é a ruína de todos. Ao final, quase não resta ninguém para baixar as cortinas.

CONSIDERAÇÕES

Não há como, em pouco espaço, relatar a viagem turbulenta e prazerosa que é ler Hamlet. Os personagens são profundos e possuem personalidades divergentes, sendo impossível condensar em poucas linhas tudo o que se revela ao longo da leitura da peça. O personagem principal, Hamlet, é um ser complexo, capaz de nos despertar sentimentos de amor e ódio. Sua indecisão, por vezes, causa descontentamento, mas, ao refletirmos com mais cuidado, é possível compreendê-lo; afinal, se um “fantasma” surgisse diante de você e lhe pedisse vingança, você fecharia os olhos e obedeceria? E se o Espectro fosse, na verdade, alguma força maligna? Ao fim, tudo é revelado, mas, ao longo da trama, as coisas permanecem em aberto.

Noutra peça já mencionada, Macbeth, há uma passagem que compartilho com vocês: “O quê, pode o diabo falar a verdade? […] Os instrumentos das trevas nos dizem a verdade; atraem-nos com mesquinharias inocentes, para depois nos trair com as piores consequências.” Shakespeare brinca com a psicologia de seus personagens – façamos a reflexão.

Há alguns dias, surgiu na internet uma “polêmica” envolvendo a personagem Ofélia, uma das figuras de Shakespeare com aura mais pura, apresentada por alguns como vítima das indecisões de Hamlet e submetida aos mandos e desmandos dos homens ao seu redor. Quero alertar os leitores para que não se deixem levar por narrativas prontas antes de lerem a obra, pois trata-se de um texto que atravessa gerações e deve ser imune a leituras/releituras anacrônicas da atualidade.

Por fim, uma das cenas que também me marcou foi a dos coveiros, na qual somos levados a refletir sobre como personagens, à primeira vista simples e provincianos, podem revelar uma lucidez que frequentemente falta aos nobres. Ali, naquelas frias covas, tudo se encerra e tudo se iguala: de reis a bobos da corte.

LEIAM HAMLET!

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